Dan Auerbach - Waiting on a Song *****

Gene Chrisman tocou bateria em “Natural Woman”, de Aretha Franklin, e em “Son of a Preacher Man”, de Dusty Springfield. Bobby Wood, que aparece em “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, e “Suspicious Mind”, do grande Elvis, exibe aqui teclas variadas por todo o disco. E depois há Duane Eddy, que tocou em centenas de discos e cuja guitarra abrilhanta por exemplo, “Cherrybomb”. E mais uma data de músicos de estúdio deste calibre, e compositores e produtores batidos de Nashville. E Mark Knopfler que dá um ar da sua graça a fazer o que sabe.
A lista e o peso das participações neste projecto rivalizam com os nomes sonantes cujos discos foram produzidos, nos últimos anos, por Dan Auerbach: Lana del Rey, Dr. John, Ray LaMontagne... Mas a lista também diz muito sobre o tipo de música que se ouve nesta segunda aventura a solo da alma mater dos Black Keys (a anterior, “Keep It Hid”, data de 2009). Soul, country, folk, funk, pop... isso tudo, mas embrulhado de uma forma brilhante e divertida. Beach Boys, Burt Bacharach, Beatles, Neil Young são os nomes que poderíamos acrescentar aos já mencionados, nem tanto como influências, mais como presenças involuntárias, tal a proximidade que por vezes é alcançada. Mas se quisermos encontrar mesmo algo de semelhante, na abordagem (música de estúdio instantânea, divertimento notório) e nos estilos percorridos, então é obrigatório lembrar os Traveling Wilburys, que no final dos anos 80 juntaram gente como Dylan, Harrison, Roy Orbison. São canções, 10 no total, quase todas com menos de três minutos, que apelam ao assobio, ao cantarolar, ao pé de dança.
Guitarras de vária sonoridade, palmas, coros afinadinhos e umas cordas, raras mas belas e certeiras. Nada a ver com os Black Keys. Será, talvez, demasiado fácil, talvez mesmo pouco exigente. E porque há-de toda a música ser complicada ou armada ao pingarelho?

Beth Ditto - Fake Sugar ****

“In and Out”, a segunda canção do disco, é um daqueles hits instantâneos capazes de encher uma pista de dança, estilo Tarantino. Bem ouvidas as coisas, a festa começa logo no primeiro tema, “Fire”, um delicioso pastiche do “Fever”, de Peggy Lee.
Explosões de ritmo atrás de explosões de ritmo, atravessando décadas. Do soul dos anos 60, ao punk e disco dos 70 (“Do You Want Me To”), às bandas soft rock dos 80 (“Fake Sugar”)... aos estádios do século XXI (“We Could Run”). Tudo isto servido por uma das mais potentes vozes dos últimos tempos, uma Adele turbinada (“Savoir Faire”).
Desfeitos os Gossip (1999-2015), os amores e outros sonhos, Beth Ditto atira-se a solo para um disco que só peca por ser talvez demasiado perfeito. Por exemplo, as baladas “Lover” ou “Love In Real Life” escusavam de ser tão expectáveis que roçam o sensaborão. Um pouco mais de ousadia e estava lá.

Colter Wall - Colter Wall *****

Johnny Cash, é verdade, já estava a precisar, não talvez de um sucessor, mas eventualmente de um herdeiro. Reserve-se, claro, alguma margem de dúvida. Cash é Cash, os tempos são outros e Colter Wall tem apenas 21 anos. Não se sabe se será preso um dia, se verá Deus noutro. 
Uma coisa é já certo: o homem tem uma voz do outro mundo. Um barítono tão encorpado que diríamos estar perante alguém na casa dos 60, muito tabaco aspirado. Mas não é só a voz. É aquele acompanhamento austero, baseado na guitarra acústica, pedal steel amiúde e pouco mais. Bateria e piano, como na belíssima “You Look To Yours”, uma canção de estrada e mulheres, e lições a tirar, como só na country se faz. 
Há a obrigatória referência a Woody Guthrie, uma canção tradicional e outra de Townes Van Zandt. O resto é material próprio, talkin’ blues do nosso século. O rapaz é canadiano, o que, diz a história, o qualifica sobremaneira para esta empreitada.