Sam Beam & Jesca Hoop - Love Letter For Fire ***

Sam Beam é a voz e alma dos Iron & Wine, como a capa faz questão de nos recordar. Jesca Hoop é uma compositora, guitarrista e cantora das zonas indie folk, de origem californiana, mas a viver na inglesa Manchester. Era pouco provável, mas, como nas histórias de amor, encontraram-se. Para escrever e interpretar 13 histórias - cartas, dizem eles - do tal amor. E o que mais salta à vista, mantendo o registo exageradamente romântico da coisa, é que as vozes casam na perfeição, todas as canções, escritas a quatro mãos, são cantadas em diálogo permanente, como se de uma conversa se tratasse ("Every Songbird Says"). A base em que tudo assenta é o folk nu e cru ("Valley Clouds"), ou naquele registo quase pop anos 50/60 ("Kiss Me Quick"). Até certo ponto, este seria um disco aceitável na discografia dos Iron & Wine, um projeto também ele ancorado na tradição, mas em busca de outros voos.

Leonard Cohen - You Want It Darker *****

Na conferência de imprensa de apresentação deste disco, três semanas antes de morrer, Leonard Cohen prometeu, pelo menos, mais dois discos. E também que fazia tenções de viver eternamente, embora depois tenha rectificado para os 120 anos... Vale a pena recordar este episódio e a auto-ironia de Cohen para colocar as coisas em contexto e retirar o dramatismo que estes actos finais sempre comportam. É claro que este é o último disco de Cohen, embora o filho, Adam - a quem verdadeiramente o devemos, tão dramáticas foram as circunstâncias da sua conclusão, graças ao estado de saúde de Leonard -, já tenha revelado que sobraram uns temas das sessões de gravação... Tendo sido gravado nessas circunstâncias, o disco ganha inevitavelmente um estatuto de testamento, acentuado pelo facto de a totalidade das canções se debruçarem sobre o tema da finitude. Não há propriamente qualquer balanço de vida, apenas a constatação de que tudo tem um tempo. E que o tempo, na circunstância pessoal, é o do fim. Poeticamente, Cohen está ao seu melhor nível, fazendo mesmo recordar o fulgurante início de carreira ("Treaty", "Steer Your Way", ou o tema que dá título ao CD), com recurso frequente a expressões da cultura judaico-cristã que são uma das suas marcas de água. Essa intensidade poética é servida por um apuramento meticuloso e contido da componente musical, para a qual contribuem Patrick Leonard (parceiro da triologia que começou com "Old Ideas", em 2012, e prosseguiu com "Popular Problems", em 2014) e, especialmente, Adam Cohen, a quem se deve a forma final. Este é, afinal, um disco que cumpre o que promete. You Want It Darker? Aí têm.