Tiago Bettencourt - A Procura ****

O lado B – este CD tem dois lados, uma maneira de arrumar as canções – é mais denso, com as canções a deixarem-se envolver em sonoridades vastas, à proporção dos instrumentos. É aqui que podemos ouvir “Fogo no Jardim”, um canto de intervenção dos dias de hoje, atravessado por sons da filosofia de Agostinho da Silva e pelas declarações belicistas dos presidentes americanos. Mas é no lado A, mais intimista, que estão as canções que vale a pena memorizar. Canções intimistas, porque procuram, como diz o título do disco, mas também pela frugalidade instrumental. Basicamente, este é um disco fascinado pela eletrónica, sejam as caixas de ritmo, ou os omnipresentes sintetizadores. Um intimismo pop, por paradoxal que tal possa parecer. Há aqui pop da boa, da que vende (há lá pop que não venda...), bem escrita, bem produzida. Pelo menos os três primeiros temas do disco são, por isso mesmo, autênticos hits instantâneos.

Bonnie Prince Billy - Best Troubador ****

Certo, um disco de versões é sempre uma apropriação. A transfiguração do original pela lente de quem presta homenagem. O que Bonnie Prince Billy fez com Merle Haggard (1937-2016) é algo de bem mais radical. Ao deixar de parte alguns dos maiores sucessos da estrela grande da “country”, assim como as suas canções mais animadas, Bonnie reserva-nos um Merle muito parcial, muito ao seu jeito. Este é o Merle intimista, das canções de amor complexas, das reflexões sobre a existência. Junte-se a produção caseira, num registo quase ao vivo, as flautas e o saxofone que substituem os banjos a “pedal steel” e temos o cenário sobre o qual se desenvolve a voz serena e até sussurrada (“I Am What I Am”) de Bonnie. “If I Could Only Fly”, que encerra o disco, ou “My Old Pal” são dois dos temas em que o espírito deste disco mais se corporiza. O ADN das canções ainda é “country”, mas este disco já é outra coisa.

Camané - Canta Marceneiro *****

Camané já cantou muitas vezes Marceneiro. Logo no segundo disco (1998), há um fado com música da Marcha do Marceneiro. Nisso, Camané não se distingue da maioria dos fadistas, já que quase todos acabam por interpretar temas com músicas do grande fadista, seja o Fado Cravo, o Fado Laranjeira, ou qualquer um dos fados com que Marceneiro ajudou a moldar o fado que hoje conhecemos. Mas Camané obrigou-se a esperar quase duas décadas, a amadurecer duas décadas, para verdadeiramente cantar Marceneiro. Ou seja, para cantar exactamente os fados que Marceneiro cantou. Com aquelas músicas, mas também com aquelas letras e, acima de tudo, com aquela alma. 
Não se trata aqui de imitar ou emular Marceneiro, isso seria talvez mais fácil. O que Camané faz é recriar Marceneiro, propondo a sua própria interpretação, a qual, por ser tão íntima da original, acaba por se transformar na melhor das homenagens. Essa é a primeira vitória deste disco, sendo a segunda a coragem de cantar em 2017 estes versos arrancados à boémia, às casas de fados e a uma mundividência da primeira metade do século XX, em que – imagine-se – ainda havia mundo rural (“Quadras Soltas”), ciganos “alquiladores” que “roubavam” camareiras e até mesmo jovens pintores que pintavam na rua retratos das suas prostitutas mães (“Bêbado Pintor”). São quadros quase arqueológicos que convivem com os temas mais eternos do amor e do engano (“Olhos Fatais”) ou da tal tão nossa saudade (“Despedida”). E depois há essa pequena e pouca conhecida pérola que se chama “O Remorso” (interpretação vocal e instrumental superiores) e ainda outra, “Lembro-me de Ti”. 
A capa de Siza Vieira ou o dueto com Carlos do Carmo são já bónus num disco perfeito.

Marco Rodrigues - Copo Meio Cheio ****

Preconceito nenhum. Há fado fado, há canções quase pop que parecem fado, há fados tradicionais com letras nada convencionais, há fados quase sem guitarra portuguesa, e por aí fora. O quinto disco de Marco Rodrigues revela um artista plenamente seguro de si, capaz de ignorar todas as fronteiras e ficar à vontade na mesma. A ideia de trazer outros instrumentos para o fado já vinha de trás (aqui, o acordeão em “Fado do Cobarde”, ou o piano e a harmónica em “O Amor Desacontece”). A novidade agora é trazer para o fado autores que nunca nele haviam sequer pensado. E há de tudo: um verdadeiro fado escrito por Agir (“Por Ti”), uma canção pop com nada de fado, pelos Amor Electro (“Copo Meio Cheio”). E as letras inesperadas, com rimas de “swag” e “biscuit, de Luísa Sobral, Carlão ou Capicua, para velhos fados tradicionais. Surpreendente, como permite o fado tanta liberdade e criatividade e mesmo assim ser fado.

Cage The Elephant - Unpeeled ***

Americanos do Kentucky, os Cage The Elephant conquistaram a Inglaterra com um som meio garage, meio punk. Ou seja, com guitarras e secções rítmicas sem contemplações. Este disco é, porém, algo completamente diferente: a banda decidiu fazer uma digressão acompanhada por um quarteto de cordas e com as guitarras em registo comedido. Estão lá, são importantes, chegam a impor-se, mas nunca esmagam. O resultado é muito interessante, mesmo para quem não esteve particularmente atento aos cinco discos anteriores, um deles ao vivo, aliás como este, embora possa não parecer à primeira vista. Faltam por vezes os aplausos e o ambiente, mas as interpretações, apesar de perfeitinhas, não enganam. Neste registo, assemelham-se muito aos Kinks, até pelo sentido de humor. A revisão dos principais temas, sem a canga instrumental, acaba por mostrar uma banda de qualidade de escrita acima da média. Com um agridoce muito britânico, lá está.

Mazgani - The Poet’s Death ****

Se a música tivesse tradução visual, a de Mazgani neste disco seria algo como pequenas luzes, traços, outras e maiores luzes, cores tracejadas, interrogações no escuro. No azul escuro da noite, tal como na capa de Michelle Henning, designer de eleição PJ Harvey, que assim se cruza mais uma vez com a voz deste iraniano de Lisboa. Este é um regresso às canções em nome próprio, depois da bem-sucedida aventura das versões de “Lifeboat” (2015). Um regresso ao blues seminal, sem grandes artifícios, só ritmos e guitarras vincadas, ora lancinantes ora de embalar. Uma tensão sonora com tempo para se espraiar. Dez temas em busca da alma (“The Traveler”), com mais perguntas que respostas (“Saint of All Names”), talvez com um pouco mais de espiritualidade do que antes (“Breath of Gold”). E depois, a fechar, “The Faintest Light”, delicadíssima balada, cordas em crescendo, abrindo caminhos de luz na noite escura e azul.

Lizz Wright - Grace ****

Lizz Wright é uma daquelas vozes capazes de transformar a mais banal das canções numa oração, um exercício com tanto de religioso como de carnal. Não é o caso, no que respeita às canções, entenda-se. Joe Henry, o produtor, um homem de tradições, terá sugerido 70 canções, das quais Lizz escolheu nove, juntando-lhes mais uma, que assina em co-autoria. São temas que atravessam um século de música americana, do gospel aos blues, ao country e ao R&B. Dylan, Ray Charles, k. d. lang, Rose Cousins são alguns dos autores que por aqui passam. Lizz e Joe apropriam-se de cada canção e encenam pequenos momentos de magia. “Grace”, por exemplo, começa da forma mais subtil possível, com a voz no centro do palco, para mais tarde receber um coro que entra de mansinho e evolui para um sonante, embora contido, gospel. Ao sexto disco, Lizz Wright continua sem um minuto, um segundo, de deslize. De uma elegância intransigente.

Ringo Starr - Give More Love **

E tu, diz lá, se fosses um ex-Beatle, que farias tu? Sim, dá para viver, upa upa, dos rendimentos. Mas depois há aquele tédio de ficar todos os dias pasmado a ver o sol mergulhar no mar... Vai daí, chamas os amigos, gravas umas canções, divertes-te (mas, atenção, nada de exageros...), ganhas mais uns cobres, porque, convenhamos, um disco de um-Beatle vende-se, mesmo que a embalagem venha vazia. E depois, oh luxo, até podes fazer umas digressões, para te divertires (sim, sem exageros...) e, isso mesmo, ganhar mais uns cobres. Tem sido esta a vida e obra de Ringo Starr, um rapaz que canta mesmo sem voz, e que tem, vá lá, a quarta classe completa na categoria dos bateristas. Este é o 19.º disco do artista, não muito diferente do primeiro: rock’n’roll, blues, country, amigos (McCartney), interpretações competentes (menos a voz, claro). A cada disco, Ringo consolida a invejável posição de quarto Beatle. Não é para qualquer um.

LCD Soundsystem - American Dream ****

“American Dream”, a canção, sintetiza a coisa: a electrónica é planante, borbulhante por vezes, e há mesmo coros doo woop a envolver a voz de quase crooner de James Murphy. Como numa valsa pós-moderna. Mas a melodia rima com melancolia. E do que a canção fala mesmo é da passagem do tempo, dos sonhos que envelhecem connosco. Podemos passar a noite a dançar, por exemplo ao som dos LCD Soundsystem, e até misturar ácidos com revoluções, mas o que o espelho da manhã nos devolve é mesmo a idade.
A música de Murphy teve sempre esse sabor agridoce tão típico de Nova Iorque. Este quarto disco em 15 anos não é excepção e até talvez acentue esse desencanto. Trata-se de um regresso após cinco anos de silêncio, iniciados com um memorável concerto de despedida... E o mais importante que há a dizer é que “American Dream” mantém a banda na linha da frente do melhor que por aí se faz. Ou seja, o quarto disco de uma série indispensável para entender a música contemporânea. Nem tudo passa por aqui, é certo, mas poucas músicas sintetizam tão bem a ilusão e desilusão deste início de milénio.
Os LCD Soundsystem continuam a ser James Murphy, que escreve todos os temas, canta e toca uma miríade de instrumentos, eletrónicos quase todos. A frieza e o esquematismo, a lembrar por vezes os Kraftwerk (“How Do You Sleep”), são temperados por secções rítmicas e guitarras eléctricas (“Emotional Haircut”), embora nem mesmo elas consigam sempre quebrar o gelo. Das muitas referências musicais que por aqui passam, vale a pena registar as que abrem e fecham o disco: “Oh Baby”, uma quase homenagem aos Suicide, de Alan Vega (“Dream Baby Dream”), e “Black Screen”, uma longa e muito pessoal despedida de David Bowie, à volta de cuja influência se constrói, aliás, outra canção: “Call The Police”.

John Legend, Meo Arena 14 out


“All Of Me”, o megassucesso de 2013, poderá dar origem a alguns equívocos. John Legend é um poderoso cantor de baladas, daquelas que se cantam sonoramente. Algo muito semelhantes a uma Adele de voz (ainda) mais grave. Em abono dessa tese, há no disco mais recente (“Darkness and Light”, de 2016) uma canção (“Love Me Now”), que mais não é que uma tentativa de aproveitar a embalagem comercial desse sucesso que atirou Legend para a fama. Há até a coisa matreira de incluir umas linhas de piano em tudo idênticas... Mas “Darkness and Light”, a começar pelo título, é um disco bem mais complexo que essa abordagem melosa, revelando um artista que não se deixa engaiolar nessa aproximação simplista. É um disco verdadeiramente, de sombras e luz, de amor em tempos de guerra, se quisermos. A canção para a filha (“Right By You”), com ternura tintada de angústia por um futuro tão incerto neste planeta, ou a história de uma mera operação stop na estrada (“How Can I Blame You”), metáfora para a violência policial com motivações racistas. Complexidade que se revela também nas texturas musicais, como no groove de “Penthouse Floor”, a milhas da rotina das baladas bem comportadas. Longe vão os tempos em que Legend era um protegido de Kanye West, conforme atestam os muitos Grammys e mesmo o Oscar entretanto amealhados. Face a alguma futilidade reinante, apresenta-se, portanto, um artista adulto, em toda acepção da palavra.

Phoenix - Ti Amo ****

No vídeo de “J-Boy”, um delicioso momento retro-italiano, nomeiam-se as influências dos Phoenix: Beatles, Kraftwerk, The Jacksons, Velvet Underground, Prince, Serge Gainsbourg... Enfim, quase tudo. E ainda se poderia acrescentar os Strokes, de que o próprio “J-Boy” constitui um excelente exemplo. Ou os Buzzcocks, ou Hall & Oates... Para esta banda de Versalhes, a funcionar desde 2000, tudo pode ser refinado através de uma batida disco, muito anos 70, completamente dominada pelos sintetizadores. Neste sexto disco, o carácter retro, nos limites do kitsch, é acentuado pela aventura italiana implícita no título e explícita na letra: “I’ll show you how to win / my festival di Sanremo”. É um disco que exala felicidade e alegria, em que quase se ouvem os tilintares dos copos de “champanhe ou prosecco” a bordo de iates, apesar de, sim, todos sermos “kamikazes in a hopeless world”. Ah, a bela decadência...

Pierre Aderne - Da Janela de Inês ***

Um disco que se ouve como se lêssemos um livro. Porque foi no esboço de um livro que nasceram estas 11 canções. 11 quadros, contados dia a dia, da vida de Inês, uma mulher, talvez de lisboa, talvez dos nossos dias. Dúvida geográfica porque esta música viaja de Lisboa ao Brasil, passando por África, como se percebe logo aos primeiros acordes. Dúvida temporal porque, apesar da contemporaneidade da história, são intemporais os temas que aborda, mas também ainda porque a sonoridade dos acordes acústicos, especialmente do violão, remete muitas vezes para a música dos travadores, medievos ou renascentistas. Pierre Aderne, músico e compositor residente em Lisboa há uns anos, explica que começou por escrever a história, pensando num livro, mas a certa altura percebeu que era história que pedia música. Da qual se encarregou Leo Minax, num processo criativo que também atravessou geografias. O violão domina, mas lindo é quando entra, por exemplo, o acordeão (“Cabelos de Lua Preta”) ou a guitarra portuguesa (“Tu Não Sabes o Que É o Amor”). Manuel Morgado

Carmen Souza - Creology ****

Comparam-na a Billie Holiday, Nina Simone, Sarah Vaughan ou mesmo Elis Regina. Estas comparações são sempre muito discutíveis, mas servem para nos situarmos. Que Carmen Souza tem uma excelente voz e uma capacidade interpretativa acima da média fica claro logo ao primeiro tema deste disco, “Ligria” e nas modulações que exibe. Isto, claro, para quem passou ao lado dos oito discos, em estúdio e ao vivo, lançados na última década e meia. Se fosse necessário catalogar esta cabo-verdiana, nascida em Lisboa em 1981, o jazz seria a opção mais evidente (ouça-se, por exemplo, “Pretty Eyes”), porém, mais uma vez, redutora, porque é do Brasil, mas especialmente, de África (“Creology”), que chegam os ritmos e odores vocais mais fortes. Coisa contemporânea, de raízes longínquas. Esta é também uma música que respira, que deixa ouvir cada respiração dos instrumentos, com destaque óbvio para o contrabaixo de Theo Pascal.

The Strypes - Spitting Image ***

Sim, podíamos ouvir os originais, mas não seria a mesma coisa. Nem teria a mesma graça. Os originais são, por exemplo, Elvis Costello, Joe Jackson (“Easy Riding”) dos primeiros acordes, os Jam, os Squeeze (“Grin and Bear It”). E também os mais antigos Dr. Feelgood, papas do pub-rock, que os rapazes queriam imitar quando começaram a tocar, aos 16. E ainda, imagine-se, Bo Diddley, influência muito respeitável, homenageado em “Oh Cruel World”. Na prática, o que os rapazes praticam é uma new wave completamente fora de tempo, mas bem esgalhada. Obviamente, com a desvantagem de ser um quase pastiche, mas com o mérito da alegria que só a honestidade (meia bola e força) pode alcançar. “(I Need a Break From) Holidays” estica-se quase até ao punk (aquela batida, aquelas guitarras), mas o resto é bem mais estilizado, apesar de enérgico. Ao terceiro disco, a fórmula destes irlandeses parece aguentar-se.

The Beach Boys - Sunshine Tomorrow *****

Este é, então, o lado B do Verão do Amor. Em 1967, os Beach Boys já tinham gravado a sua obra-prima absoluta (“Pet Sounds”, de 1966) e o genial Brian Wilson perdeu-se, literalmente, na produção de um disco (“Smile”) pensado para derrotar os Beatles, mas que nunca viu a luz do dia. Em 67, portanto, quando toda a gente era uma revolução musical, os BB quase hibernaram. Lançaram um disco (“Wild Honey”), sem Brian ao volante e que era uma espécie de marcha atrás, com a banda a descobrir o R&B, por onde toda a gente já tinha passado (“How She Boogalooed”), e quase sem os devaneios barrocos do mesmo Brian (“A Thing or Two”), para depois embarcarem numa digressão – adivinharam, também sem Brian... – que mostrava um grupo pouco consistente e com umas versões a léguas das registadas em estúdio. Esta edição recolhe tudo isso. “Wild Honey”, pela primeira vez em versão estéreo, a que se juntam uma série de versões alternativas, de estúdio, de ensaio. Dá para perceber que, sem a liderança de Brian, a banda procura qualquer coisa e essa coisa não é propriamente desinteressante, apenas não é inovadora. Há depois mais uma mão cheia dos destroços de “Smile”, que já haviam sido alvo de ampla edição em 2011 (“Smiley Smile”). E ainda uma série de gravações ao vivo da tal digressão e mais umas coisas dispersas, a que não falta uma gravação de estúdio destinada a levar palmas e fingir de vivo (“Heroes and Villains”, por sinal uma versão muito interessante e diferente da oficial, esta sim com Brian em plena acção). Tudo somado, temos uma edição que, pela primeira vez, demonstra o esgotamento do fulgor inicial dos BB e a passagem para uma versão menos ambiciosa, à sombra da qual a banda sobreviveu nas décadas seguintes. Com e sem Brian.

Dan Auerbach - Waiting on a Song *****

Gene Chrisman tocou bateria em “Natural Woman”, de Aretha Franklin, e em “Son of a Preacher Man”, de Dusty Springfield. Bobby Wood, que aparece em “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, e “Suspicious Mind”, do grande Elvis, exibe aqui teclas variadas por todo o disco. E depois há Duane Eddy, que tocou em centenas de discos e cuja guitarra abrilhanta por exemplo, “Cherrybomb”. E mais uma data de músicos de estúdio deste calibre, e compositores e produtores batidos de Nashville. E Mark Knopfler que dá um ar da sua graça a fazer o que sabe.
A lista e o peso das participações neste projecto rivalizam com os nomes sonantes cujos discos foram produzidos, nos últimos anos, por Dan Auerbach: Lana del Rey, Dr. John, Ray LaMontagne... Mas a lista também diz muito sobre o tipo de música que se ouve nesta segunda aventura a solo da alma mater dos Black Keys (a anterior, “Keep It Hid”, data de 2009). Soul, country, folk, funk, pop... isso tudo, mas embrulhado de uma forma brilhante e divertida. Beach Boys, Burt Bacharach, Beatles, Neil Young são os nomes que poderíamos acrescentar aos já mencionados, nem tanto como influências, mais como presenças involuntárias, tal a proximidade que por vezes é alcançada. Mas se quisermos encontrar mesmo algo de semelhante, na abordagem (música de estúdio instantânea, divertimento notório) e nos estilos percorridos, então é obrigatório lembrar os Traveling Wilburys, que no final dos anos 80 juntaram gente como Dylan, Harrison, Roy Orbison. São canções, 10 no total, quase todas com menos de três minutos, que apelam ao assobio, ao cantarolar, ao pé de dança.
Guitarras de vária sonoridade, palmas, coros afinadinhos e umas cordas, raras mas belas e certeiras. Nada a ver com os Black Keys. Será, talvez, demasiado fácil, talvez mesmo pouco exigente. E porque há-de toda a música ser complicada ou armada ao pingarelho?

Beth Ditto - Fake Sugar ****

“In and Out”, a segunda canção do disco, é um daqueles hits instantâneos capazes de encher uma pista de dança, estilo Tarantino. Bem ouvidas as coisas, a festa começa logo no primeiro tema, “Fire”, um delicioso pastiche do “Fever”, de Peggy Lee.
Explosões de ritmo atrás de explosões de ritmo, atravessando décadas. Do soul dos anos 60, ao punk e disco dos 70 (“Do You Want Me To”), às bandas soft rock dos 80 (“Fake Sugar”)... aos estádios do século XXI (“We Could Run”). Tudo isto servido por uma das mais potentes vozes dos últimos tempos, uma Adele turbinada (“Savoir Faire”).
Desfeitos os Gossip (1999-2015), os amores e outros sonhos, Beth Ditto atira-se a solo para um disco que só peca por ser talvez demasiado perfeito. Por exemplo, as baladas “Lover” ou “Love In Real Life” escusavam de ser tão expectáveis que roçam o sensaborão. Um pouco mais de ousadia e estava lá.

Colter Wall - Colter Wall *****

Johnny Cash, é verdade, já estava a precisar, não talvez de um sucessor, mas eventualmente de um herdeiro. Reserve-se, claro, alguma margem de dúvida. Cash é Cash, os tempos são outros e Colter Wall tem apenas 21 anos. Não se sabe se será preso um dia, se verá Deus noutro. 
Uma coisa é já certo: o homem tem uma voz do outro mundo. Um barítono tão encorpado que diríamos estar perante alguém na casa dos 60, muito tabaco aspirado. Mas não é só a voz. É aquele acompanhamento austero, baseado na guitarra acústica, pedal steel amiúde e pouco mais. Bateria e piano, como na belíssima “You Look To Yours”, uma canção de estrada e mulheres, e lições a tirar, como só na country se faz. 
Há a obrigatória referência a Woody Guthrie, uma canção tradicional e outra de Townes Van Zandt. O resto é material próprio, talkin’ blues do nosso século. O rapaz é canadiano, o que, diz a história, o qualifica sobremaneira para esta empreitada.

The Shins - Heartworms ****

Pop dos anos 80 (“Fantasy Island”), coisas meio psicadélicas (“Painting a Hole”), valsas lentas e apaixonadas (“The Fear”), memórias da new wave (“Half a Million”) e mesmo um tema acústico, algures entre a country e a folk britânica (“Mildenhall”). Sim, este é um disco que, em apenas 11 canções, percorre quase toda a história da música popular das últimas décadas. Presume-se que a pretensão não seja demonstrar qualquer ecletismo ou virtuosismo, mesmo tendo em conta que tudo isto sai praticamente da mesma cabeça, James Mercer, o inventor da banda, já lá vai década e meia. O resultado, diga-se, é muito divertido, um objeto pop para dançar, sonhar, assobiar e todos os verbos demonstrativos da alegria que só a música pode desencadear. Estranho, este Mercer. Explosão de criatividade sempre que grava, sendo que grava muito pouco (o disco anterior data de 2012). É, portanto, de aproveitar.

Spoon - Hot Thoughts ****

Quem aqui chega, ao acaso, é capaz de subentender Arcade Fire no segundo tema, de título quase impronunciável. Outros, mais ilustres mas também desprevenidos, tenderão a admirar a atmosfera tão Bowie-da-fase-Low em “Us”, que fecha o disco. As comparações são, porém, menorizadoras para a banda, que já vai no nono disco, emergindo lentamente da cena indie para um quase estrelato que alguns temas deste disco deixam antever. “Tear It Down”, uma balada aditivada, ou o funk, igualmente musculado, de “Can I Seat Next to You” estão mesmo a pedir estádios, tops e, claro, pistas de dança. Os Spoon continuam a praticar um pós-punk, aparentado do funk, em que a batida e a guitarra são rainhas, mas agora com uma muito mais proeminente electrónica, saudosa do disco, que faz tudo isto muito mais luminoso e, porque não dizê-lo, divertido. E com a liberdade criativa que lhes permite ousar dois instrumentais de cinco minutos, perfeitamente coerentes com tudo o resto.

Jason Isbell and the 400 Unit - The Nashville Sound ****

Não, Jason Isbell não é apenas mais um cantor country. Há pelo menos duas razões de peso para que o ouçamos. Antes de mais, para percebermos, de forma muito evidente, como o tal country (mais o blues, que não é para aqui chamado) esteve na origem do muito que hoje ouvimos. Jason nunca se fica pelo country, apenas parte dele para outra coisa qualquer. E depois porque Jason é aquilo a que há uns anos se chamava cantautor, alguém que, mais do que autor e cantor, é também um contador de histórias, parábolas da vida contemporânea. Do horror pela eleição de Trump (“White Man’s World”) às doçuras e agruras do amor, que dão origem a duas das mais belas canções do disco: “If We Were Vampires”, em dueto com a mulher, Amanda Shires, e “Chaos and Clothes”, com a voz duplicada do autor. A honestidade com que se expõe, a teimosia em seguir valores, tornam Jason em alguém quase antiquado, como canta em “Last of My Kind”.

Feist - Pleasures ****

Quando se chega a “I’m Not Running Away”, já quase no final do disco, apetece voltar ao início e ouvir tudo de novo, agora à sombra dos blues. Essa é a canção em que fica mais exposta a ossatura fundamental desta aventura de Feist. O recurso ao blues, a mais essencial das músicas, para cantar as mais perenes histórias da humanidade, histórias de ternura e dor, sexo e morte. O blues, insiste-se, será apenas a ossatura, num corpo musical surpreendentemente musculado – que evolução, nestes seis anos de silêncio desde Metals -, e falho de gorduras, de adornos inúteis. Os instrumentos são os estritamente necessários, numa gravação quase caseira (“Get No High, Get Not Low”), e dispostos do modo rude, sem artifício evidente (“Pleasure”, ou “Century”, esta com Jarvis Cocker a cantar “outra” canção. Já “A Man Is Not His Song”, ou “Any Way” (aquele começo à Kinks…), na sua simplicidade, atestam que estamos perante uma compositora de calibre mais que razoável.

Silva canta Marisa ****

Este disco poderia ter sido gravado por Marisa. Aliás, Marisa canta neste disco, num tema inédito escrito com Silva (“Noturna”), um dos muitos que terão composto quando se conheceram, há dois anos. 
 disco bebe em Marisa não apenas as canções, mas também o jeito doce com que Marisa as interpreta. A diferença, aqui, é a simplificação orquestral a que são sujeitas. Silva transporta a tal doçura para o seu universo feito de hip-hop, acid jazz reggae e linguagens electrónicas e canções surgem-nos muito familiares, mas ainda mais distendidas do que em algumas das abordagens a que a autora as submeteu, por exemplo, em concerto. 
Interessante é perceber como, mesmo nesta abordagem, digamos, pós-moderna, as canções mantêm o balanço de samba, um samba lânguido, que é a marca característica de Marisa (“O Bonde do Dom”. Que não haja por aqui nada de surpreendente talvez seja mesmo a surpresa boa.

The Beatles - Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band *****

Têm chegado à nossa equipa de consultores várias mensagens que podem resumir-se a isto: “Mestres, devo comprar a reedição do Sgt. Peppers? É que já tenho tantas... é só mais uma, não é?” 
Não, não é. Passado meio século sobre a sua edição – é disso que trata a presente comemoração -, é já seguro afirmar que se trata de um feito inultrapassável. Notem bem, 50 anos é muito ano e tentativas não faltaram. Só que aquele equilíbrio perfeito entre génio e técnica, aventura e pés no chão, loucura e clarividência, é simplesmente único e, sim, inultrapassável. E a partir de agora – esse é o ponto – ainda mais o será. Giles Martin, filho de George, o “quinto beatle”, pegou nas gravações mono originais e misturou tudo de novo, mas em estéreo (o estéreo já existente era bastante fatela...). E é todo um novo mundo de sons, com os instrumentos muito definidos e bem localizados. As guitarras, essas, são uma maravilha... 
Portanto, só isso já seria muito bom, e há até uma edição “só” com isso. Mas o que vale mesmo a pena é procurar um dos muitos formatos (tudo depende da bolsa...) em que surgem os vários extras, basicamente gravações de teste. E é simplesmente fabuloso ouvir aqueles quatro à procura do registo certo. Por exemplo, as várias versões de “Strawberry Fields Forever” (gravada para surgir no Sgt. Peppers, mas que acabou por sair, antes, num single). 
Ouvem-se algumas destas versões e imagina-se facilmente como o disco de 67 poderia ter sido diferente de tantas maneiras e todas elas muito boas. Ou então o take 8 da reprise da canção que dá nome ao disco, que na prática é uma versão ao vivo, exemplar do que poderiam ter continuado a ser os Beatles se a história tivesse sido outra. Comprar? Mas alguém duvida?

Paulo de Carvalho - Duetos **
João Gil - Por... ****


A memória, já se sabe, pode ser uma bênção ou uma maldição. Na música, então, nem se fala. Há lá, na cultura popular, coisa que mexa mais com a memória do que uns três ou quatro minutos de música e letra, com refrão apelativo e embrulho colorido com os tiques da moda? Pois, a magia das canções... Paulo de Carvalho e João Gil, dois dos nomes responsáveis por algumas das canções que mais marcaram a nossa memória colectiva das últimas décadas, acabam de lançar discos em que lidam com essa mesma memória. As abordagens são bem diferentes. Os resultados também.


Paulo de Carvalho é uma das vozes mais marcantes do último meio século da música portuguesa, e o facto de nunca ter alcançado uma carreira internacional diz mais sobre a nossa periferia do que acerca dos seus dotes vocais e interpretativos. Para o disco com que revisita 55 anos de carreira, optou por gravar 17 duetos com outras tantas vozes da lusofonia, sobre orquestrações próximas das originais. E se o próprio se revela como peixe na água, e em grande forma vocal, o mesmo já não se poderá dizer de grande parte das vozes que com ele contracenam, especialmente as mais jovens. Por vezes, chega a parecer que se trata de um exercício de karaoke, em que uns “tenrinhos” esboçam uns improvisos e trejeitos sobre a grande arte de Carvalho. Os duetos com Camané e Carlos do Carmo sobressaem pela positiva, neste exercício que, por vezes, nos faz ter saudades das primeiras versões.


João Gil é, desde os Trovante (1976), um dos compositores mais presentes nas nossas vidas, mesmo que por vezes não saibamos que são dele as canções (Ala dos Namorados, Rio Grande, Cabeças no Ar, Filarmónica Gil...).  Assinala os 40 anos de carreira com um duplo CD em que revisita 18 dos seus sucessos, junta 10 inéditos e convida 32 músicos de várias gerações para a festa. “125 Azul”, na voz de Carlão e Lúcia Moniz, é bem o exemplo de transfiguração a que se assiste por aqui. Ou a delicadeza com que Márcia aborda “Memórias de um Beijo”, libertando-a da usura da memória. O mesmo com Luísa Sobral com “Postal dos Correios”. Cada canção – e isso vale para as novas, mas especialmente para as já conhecidas – foi sujeita a um meticuloso trabalho de orquestração diferenciada, ficando a homogeneidade garantida pela marca de Gil.

A memória pode, afinal, ser uma oportunidade para contar a mesma história da mesma maneira, ou então reinventar tudo e construir novas memórias.


Mark Lanegan Band - Gargoyle ****

Como um vendedor de caixões. Como se faz? Elogia-se o conforto dos tecidos interiores? A robustez das madeiras? Talvez a climatização... O mesmo com Mark Lanegan. As capas, os títulos, as letras, tudo tresanda a morte, negrume, morbidez. É certo que com alguns toques de humor, negro evidentemente. Apesar de todo esse odor a morte, a música de Lanegan é muito audível e, daí, recomendável. Acontece até que este 10.º a solo, 4.º em nome de ML Band, é muito bem conseguido. A eletrónica omnipresente há uns tempos, assim continua (“Drunk on Destruction”), mas as guitarras também estão por todo o lado, quebrando o rame-rame das teclas e dando alma às canções (“Emperpor”, ou “Behive”, quase-homenagem aos U2, num disco “herdeiro” dos New Order e, mais longinquamente, dos VU. As baladas aliviam um pouco a carga e há mesmo uma (“Goodbye to Beauty”) que, no seu acabamento acústico e apesar do título, nos faz acreditar que há luz.

Sheryl Crow - Be Myself ***

I told you to be discreet / But you went to the world and you broadcast me. O novo disco de Sheryl Crow é uma curiosa divagação pelo mundo contemporâneo, a que nem falta Trump, o Twitter e os espiões russos. Cena deprimente, portanto? Nem por isso, porque quem a conhece sabe como gosta de dar a volta a essas cenas com ironia e humor. Put your phone away / Let’s roller skate. Depois da aventura country dos últimos discos (especialmente de “Feels Like Home”, de 2013) esta edição marca o regresso ao início da carreira (anos 90), numa espécie de auto-retro. Influência country, sim, mas isto agora é mesmo pop. Sem complexos, com muita guitarra, pormenores sonoros divertidos, apelo à dança. A fazer lembrar “All I Want to Do”, do disco de estreia (93). Porque, como canta na canção que dá título ao disco: If I can’t be someone else / I might as well be myself. Disse-lhe o psicólogo, mas qualquer um de nós lhe diria o mesmo.

Ryan Adams - Prisoner ***

É impossível não ouvir Springsteen quando surge aquele solo de saxofone sobre fundo de estalidos de dedos e guitarra acústica dedilhada em “Tightrope”. E, então, se já antes se ouviram umas teclas de fundo (“Shiver and Shake”) e uma batida (“Haunted House”), marcas registadas do Boss, então, a coisa fica complicada. Não que Ryan Adams alguma vez tenha renegado as suas influências, mas neste 15.º disco elas ficam talvez demasiado à vista. Um dos músicos mais irrequietos da sua geração (o disco anterior era uma versão do “1989”, de Taylor Swift), consegui, apesar dessa busca intensa, timbrar um som reconhecível a distância considerável. Qualquer coisa entre uma country sofisticada (aqui “To Be Without You”) e a sonoridade das grandes bandas dos anos 80. Essa batida acaba por iluminar um disco de ruptura amorosa, mais uma vez inspirado na vida real. Ambas, música e dor de alma, não primam pela surpresa, ou mesmo originalidade.

Diana Krall - Turn Up the Quiet ****

“Sway”, a rumba que Dean Martin imortalizou, é aqui quase eternizada, numa langorosa versão de mais de seis minutos, em que, à vez ou em diálogo, piano, guitarra, baixo e bateria dizem o que têm a dizer, antes que toda uma orquestra por ali irrompa a abrir caminho a um pequeno solo de violoncelo. É Diana Krall em grande, num disco que marca o regresso aos standards e ao jazz. Um disco que apela à intimidade, à volta de temas que cantam o amor feliz. As canções sucedem-se em trio, quarteto e orquestra, sempre com espaço para o improviso, com destaque especial para a guitarra de Russel Malone. “No Moon at All” e “L-O-V-E” são os temas em que o jazz mais se expõe, especialmente na segunda, em que Krall mostra que é tão boa no piano como na voz. Um 13.º disco que revela a artista num ponto particularmente alto, em que casa na perfeição o rigor da interpretação com um à-vontade notável na encenação das canções.

Alison Krauss - Windy City ***

Algumas das melhores baladas que ainda hoje se ouvem nasceram nas águas, ou nas margens, da música country, nos idos de 50 e 60 do século passado. “Losing You” ou “You Don’t Know Me” são apenas alguns dos exemplos a que Alison Krauss dá voz, neste seu primeiro disco a solo desde 1999. Também ela oriunda dos territórios country e bluegrass, decidiu celebrar o 30.º aniversário de carreira com um disco em que recupera precisamente as grandes baladas e canções mais mexidas dessas duas décadas prodigiosas (na verdade, há dois temas bem mais tardios, mas ninguém vai notar...). O grande trunfo do disco é mesmo a voz de Alison, e a produção faz-lhe as honras: orquestrações certinhas, sem grande rasgo, a dar todo o espaço à interpretação vocal. Essa construção acaba, porém, por enfraquecer demasiado o conjunto, que acaba por nunca sair de uma certa mediania. Apesar de tudo, pérolas há, como “Gentle on My Mind” que sobrevivem.