Dan Auerbach - Waiting on a Song *****

Gene Chrisman tocou bateria em “Natural Woman”, de Aretha Franklin, e em “Son of a Preacher Man”, de Dusty Springfield. Bobby Wood, que aparece em “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, e “Suspicious Mind”, do grande Elvis, exibe aqui teclas variadas por todo o disco. E depois há Duane Eddy, que tocou em centenas de discos e cuja guitarra abrilhanta por exemplo, “Cherrybomb”. E mais uma data de músicos de estúdio deste calibre, e compositores e produtores batidos de Nashville. E Mark Knopfler que dá um ar da sua graça a fazer o que sabe.
A lista e o peso das participações neste projecto rivalizam com os nomes sonantes cujos discos foram produzidos, nos últimos anos, por Dan Auerbach: Lana del Rey, Dr. John, Ray LaMontagne... Mas a lista também diz muito sobre o tipo de música que se ouve nesta segunda aventura a solo da alma mater dos Black Keys (a anterior, “Keep It Hid”, data de 2009). Soul, country, folk, funk, pop... isso tudo, mas embrulhado de uma forma brilhante e divertida. Beach Boys, Burt Bacharach, Beatles, Neil Young são os nomes que poderíamos acrescentar aos já mencionados, nem tanto como influências, mais como presenças involuntárias, tal a proximidade que por vezes é alcançada. Mas se quisermos encontrar mesmo algo de semelhante, na abordagem (música de estúdio instantânea, divertimento notório) e nos estilos percorridos, então é obrigatório lembrar os Traveling Wilburys, que no final dos anos 80 juntaram gente como Dylan, Harrison, Roy Orbison. São canções, 10 no total, quase todas com menos de três minutos, que apelam ao assobio, ao cantarolar, ao pé de dança.
Guitarras de vária sonoridade, palmas, coros afinadinhos e umas cordas, raras mas belas e certeiras. Nada a ver com os Black Keys. Será, talvez, demasiado fácil, talvez mesmo pouco exigente. E porque há-de toda a música ser complicada ou armada ao pingarelho?

Beth Ditto - Fake Sugar ****

“In and Out”, a segunda canção do disco, é um daqueles hits instantâneos capazes de encher uma pista de dança, estilo Tarantino. Bem ouvidas as coisas, a festa começa logo no primeiro tema, “Fire”, um delicioso pastiche do “Fever”, de Peggy Lee.
Explosões de ritmo atrás de explosões de ritmo, atravessando décadas. Do soul dos anos 60, ao punk e disco dos 70 (“Do You Want Me To”), às bandas soft rock dos 80 (“Fake Sugar”)... aos estádios do século XXI (“We Could Run”). Tudo isto servido por uma das mais potentes vozes dos últimos tempos, uma Adele turbinada (“Savoir Faire”).
Desfeitos os Gossip (1999-2015), os amores e outros sonhos, Beth Ditto atira-se a solo para um disco que só peca por ser talvez demasiado perfeito. Por exemplo, as baladas “Lover” ou “Love In Real Life” escusavam de ser tão expectáveis que roçam o sensaborão. Um pouco mais de ousadia e estava lá.

Colter Wall - Colter Wall *****

Johnny Cash, é verdade, já estava a precisar, não talvez de um sucessor, mas eventualmente de um herdeiro. Reserve-se, claro, alguma margem de dúvida. Cash é Cash, os tempos são outros e Colter Wall tem apenas 21 anos. Não se sabe se será preso um dia, se verá Deus noutro. 
Uma coisa é já certo: o homem tem uma voz do outro mundo. Um barítono tão encorpado que diríamos estar perante alguém na casa dos 60, muito tabaco aspirado. Mas não é só a voz. É aquele acompanhamento austero, baseado na guitarra acústica, pedal steel amiúde e pouco mais. Bateria e piano, como na belíssima “You Look To Yours”, uma canção de estrada e mulheres, e lições a tirar, como só na country se faz. 
Há a obrigatória referência a Woody Guthrie, uma canção tradicional e outra de Townes Van Zandt. O resto é material próprio, talkin’ blues do nosso século. O rapaz é canadiano, o que, diz a história, o qualifica sobremaneira para esta empreitada.

The Shins - Heartworms ****

Pop dos anos 80 (“Fantasy Island”), coisas meio psicadélicas (“Painting a Hole”), valsas lentas e apaixonadas (“The Fear”), memórias da new wave (“Half a Million”) e mesmo um tema acústico, algures entre a country e a folk britânica (“Mildenhall”). Sim, este é um disco que, em apenas 11 canções, percorre quase toda a história da música popular das últimas décadas. Presume-se que a pretensão não seja demonstrar qualquer ecletismo ou virtuosismo, mesmo tendo em conta que tudo isto sai praticamente da mesma cabeça, James Mercer, o inventor da banda, já lá vai década e meia. O resultado, diga-se, é muito divertido, um objeto pop para dançar, sonhar, assobiar e todos os verbos demonstrativos da alegria que só a música pode desencadear. Estranho, este Mercer. Explosão de criatividade sempre que grava, sendo que grava muito pouco (o disco anterior data de 2012). É, portanto, de aproveitar.

Spoon - Hot Thoughts ****

Quem aqui chega, ao acaso, é capaz de subentender Arcade Fire no segundo tema, de título quase impronunciável. Outros, mais ilustres mas também desprevenidos, tenderão a admirar a atmosfera tão Bowie-da-fase-Low em “Us”, que fecha o disco. As comparações são, porém, menorizadoras para a banda, que já vai no nono disco, emergindo lentamente da cena indie para um quase estrelato que alguns temas deste disco deixam antever. “Tear It Down”, uma balada aditivada, ou o funk, igualmente musculado, de “Can I Seat Next to You” estão mesmo a pedir estádios, tops e, claro, pistas de dança. Os Spoon continuam a praticar um pós-punk, aparentado do funk, em que a batida e a guitarra são rainhas, mas agora com uma muito mais proeminente electrónica, saudosa do disco, que faz tudo isto muito mais luminoso e, porque não dizê-lo, divertido. E com a liberdade criativa que lhes permite ousar dois instrumentais de cinco minutos, perfeitamente coerentes com tudo o resto.

Jason Isbell and the 400 Unit - The Nashville Sound ****

Não, Jason Isbell não é apenas mais um cantor country. Há pelo menos duas razões de peso para que o ouçamos. Antes de mais, para percebermos, de forma muito evidente, como o tal country (mais o blues, que não é para aqui chamado) esteve na origem do muito que hoje ouvimos. Jason nunca se fica pelo country, apenas parte dele para outra coisa qualquer. E depois porque Jason é aquilo a que há uns anos se chamava cantautor, alguém que, mais do que autor e cantor, é também um contador de histórias, parábolas da vida contemporânea. Do horror pela eleição de Trump (“White Man’s World”) às doçuras e agruras do amor, que dão origem a duas das mais belas canções do disco: “If We Were Vampires”, em dueto com a mulher, Amanda Shires, e “Chaos and Clothes”, com a voz duplicada do autor. A honestidade com que se expõe, a teimosia em seguir valores, tornam Jason em alguém quase antiquado, como canta em “Last of My Kind”.

Feist - Pleasures ****

Quando se chega a “I’m Not Running Away”, já quase no final do disco, apetece voltar ao início e ouvir tudo de novo, agora à sombra dos blues. Essa é a canção em que fica mais exposta a ossatura fundamental desta aventura de Feist. O recurso ao blues, a mais essencial das músicas, para cantar as mais perenes histórias da humanidade, histórias de ternura e dor, sexo e morte. O blues, insiste-se, será apenas a ossatura, num corpo musical surpreendentemente musculado – que evolução, nestes seis anos de silêncio desde Metals -, e falho de gorduras, de adornos inúteis. Os instrumentos são os estritamente necessários, numa gravação quase caseira (“Get No High, Get Not Low”), e dispostos do modo rude, sem artifício evidente (“Pleasure”, ou “Century”, esta com Jarvis Cocker a cantar “outra” canção. Já “A Man Is Not His Song”, ou “Any Way” (aquele começo à Kinks…), na sua simplicidade, atestam que estamos perante uma compositora de calibre mais que razoável.

Silva canta Marisa ****

Este disco poderia ter sido gravado por Marisa. Aliás, Marisa canta neste disco, num tema inédito escrito com Silva (“Noturna”), um dos muitos que terão composto quando se conheceram, há dois anos. 
 disco bebe em Marisa não apenas as canções, mas também o jeito doce com que Marisa as interpreta. A diferença, aqui, é a simplificação orquestral a que são sujeitas. Silva transporta a tal doçura para o seu universo feito de hip-hop, acid jazz reggae e linguagens electrónicas e canções surgem-nos muito familiares, mas ainda mais distendidas do que em algumas das abordagens a que a autora as submeteu, por exemplo, em concerto. 
Interessante é perceber como, mesmo nesta abordagem, digamos, pós-moderna, as canções mantêm o balanço de samba, um samba lânguido, que é a marca característica de Marisa (“O Bonde do Dom”. Que não haja por aqui nada de surpreendente talvez seja mesmo a surpresa boa.

The Beatles - Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band *****

Têm chegado à nossa equipa de consultores várias mensagens que podem resumir-se a isto: “Mestres, devo comprar a reedição do Sgt. Peppers? É que já tenho tantas... é só mais uma, não é?” 
Não, não é. Passado meio século sobre a sua edição – é disso que trata a presente comemoração -, é já seguro afirmar que se trata de um feito inultrapassável. Notem bem, 50 anos é muito ano e tentativas não faltaram. Só que aquele equilíbrio perfeito entre génio e técnica, aventura e pés no chão, loucura e clarividência, é simplesmente único e, sim, inultrapassável. E a partir de agora – esse é o ponto – ainda mais o será. Giles Martin, filho de George, o “quinto beatle”, pegou nas gravações mono originais e misturou tudo de novo, mas em estéreo (o estéreo já existente era bastante fatela...). E é todo um novo mundo de sons, com os instrumentos muito definidos e bem localizados. As guitarras, essas, são uma maravilha... 
Portanto, só isso já seria muito bom, e há até uma edição “só” com isso. Mas o que vale mesmo a pena é procurar um dos muitos formatos (tudo depende da bolsa...) em que surgem os vários extras, basicamente gravações de teste. E é simplesmente fabuloso ouvir aqueles quatro à procura do registo certo. Por exemplo, as várias versões de “Strawberry Fields Forever” (gravada para surgir no Sgt. Peppers, mas que acabou por sair, antes, num single). 
Ouvem-se algumas destas versões e imagina-se facilmente como o disco de 67 poderia ter sido diferente de tantas maneiras e todas elas muito boas. Ou então o take 8 da reprise da canção que dá nome ao disco, que na prática é uma versão ao vivo, exemplar do que poderiam ter continuado a ser os Beatles se a história tivesse sido outra. Comprar? Mas alguém duvida?

Paulo de Carvalho - Duetos **
João Gil - Por... ****


A memória, já se sabe, pode ser uma bênção ou uma maldição. Na música, então, nem se fala. Há lá, na cultura popular, coisa que mexa mais com a memória do que uns três ou quatro minutos de música e letra, com refrão apelativo e embrulho colorido com os tiques da moda? Pois, a magia das canções... Paulo de Carvalho e João Gil, dois dos nomes responsáveis por algumas das canções que mais marcaram a nossa memória colectiva das últimas décadas, acabam de lançar discos em que lidam com essa mesma memória. As abordagens são bem diferentes. Os resultados também.


Paulo de Carvalho é uma das vozes mais marcantes do último meio século da música portuguesa, e o facto de nunca ter alcançado uma carreira internacional diz mais sobre a nossa periferia do que acerca dos seus dotes vocais e interpretativos. Para o disco com que revisita 55 anos de carreira, optou por gravar 17 duetos com outras tantas vozes da lusofonia, sobre orquestrações próximas das originais. E se o próprio se revela como peixe na água, e em grande forma vocal, o mesmo já não se poderá dizer de grande parte das vozes que com ele contracenam, especialmente as mais jovens. Por vezes, chega a parecer que se trata de um exercício de karaoke, em que uns “tenrinhos” esboçam uns improvisos e trejeitos sobre a grande arte de Carvalho. Os duetos com Camané e Carlos do Carmo sobressaem pela positiva, neste exercício que, por vezes, nos faz ter saudades das primeiras versões.


João Gil é, desde os Trovante (1976), um dos compositores mais presentes nas nossas vidas, mesmo que por vezes não saibamos que são dele as canções (Ala dos Namorados, Rio Grande, Cabeças no Ar, Filarmónica Gil...).  Assinala os 40 anos de carreira com um duplo CD em que revisita 18 dos seus sucessos, junta 10 inéditos e convida 32 músicos de várias gerações para a festa. “125 Azul”, na voz de Carlão e Lúcia Moniz, é bem o exemplo de transfiguração a que se assiste por aqui. Ou a delicadeza com que Márcia aborda “Memórias de um Beijo”, libertando-a da usura da memória. O mesmo com Luísa Sobral com “Postal dos Correios”. Cada canção – e isso vale para as novas, mas especialmente para as já conhecidas – foi sujeita a um meticuloso trabalho de orquestração diferenciada, ficando a homogeneidade garantida pela marca de Gil.

A memória pode, afinal, ser uma oportunidade para contar a mesma história da mesma maneira, ou então reinventar tudo e construir novas memórias.


Mark Lanegan Band - Gargoyle ****

Como um vendedor de caixões. Como se faz? Elogia-se o conforto dos tecidos interiores? A robustez das madeiras? Talvez a climatização... O mesmo com Mark Lanegan. As capas, os títulos, as letras, tudo tresanda a morte, negrume, morbidez. É certo que com alguns toques de humor, negro evidentemente. Apesar de todo esse odor a morte, a música de Lanegan é muito audível e, daí, recomendável. Acontece até que este 10.º a solo, 4.º em nome de ML Band, é muito bem conseguido. A eletrónica omnipresente há uns tempos, assim continua (“Drunk on Destruction”), mas as guitarras também estão por todo o lado, quebrando o rame-rame das teclas e dando alma às canções (“Emperpor”, ou “Behive”, quase-homenagem aos U2, num disco “herdeiro” dos New Order e, mais longinquamente, dos VU. As baladas aliviam um pouco a carga e há mesmo uma (“Goodbye to Beauty”) que, no seu acabamento acústico e apesar do título, nos faz acreditar que há luz.

Sheryl Crow - Be Myself ***

I told you to be discreet / But you went to the world and you broadcast me. O novo disco de Sheryl Crow é uma curiosa divagação pelo mundo contemporâneo, a que nem falta Trump, o Twitter e os espiões russos. Cena deprimente, portanto? Nem por isso, porque quem a conhece sabe como gosta de dar a volta a essas cenas com ironia e humor. Put your phone away / Let’s roller skate. Depois da aventura country dos últimos discos (especialmente de “Feels Like Home”, de 2013) esta edição marca o regresso ao início da carreira (anos 90), numa espécie de auto-retro. Influência country, sim, mas isto agora é mesmo pop. Sem complexos, com muita guitarra, pormenores sonoros divertidos, apelo à dança. A fazer lembrar “All I Want to Do”, do disco de estreia (93). Porque, como canta na canção que dá título ao disco: If I can’t be someone else / I might as well be myself. Disse-lhe o psicólogo, mas qualquer um de nós lhe diria o mesmo.

Ryan Adams - Prisoner ***

É impossível não ouvir Springsteen quando surge aquele solo de saxofone sobre fundo de estalidos de dedos e guitarra acústica dedilhada em “Tightrope”. E, então, se já antes se ouviram umas teclas de fundo (“Shiver and Shake”) e uma batida (“Haunted House”), marcas registadas do Boss, então, a coisa fica complicada. Não que Ryan Adams alguma vez tenha renegado as suas influências, mas neste 15.º disco elas ficam talvez demasiado à vista. Um dos músicos mais irrequietos da sua geração (o disco anterior era uma versão do “1989”, de Taylor Swift), consegui, apesar dessa busca intensa, timbrar um som reconhecível a distância considerável. Qualquer coisa entre uma country sofisticada (aqui “To Be Without You”) e a sonoridade das grandes bandas dos anos 80. Essa batida acaba por iluminar um disco de ruptura amorosa, mais uma vez inspirado na vida real. Ambas, música e dor de alma, não primam pela surpresa, ou mesmo originalidade.

Diana Krall - Turn Up the Quiet ****

“Sway”, a rumba que Dean Martin imortalizou, é aqui quase eternizada, numa langorosa versão de mais de seis minutos, em que, à vez ou em diálogo, piano, guitarra, baixo e bateria dizem o que têm a dizer, antes que toda uma orquestra por ali irrompa a abrir caminho a um pequeno solo de violoncelo. É Diana Krall em grande, num disco que marca o regresso aos standards e ao jazz. Um disco que apela à intimidade, à volta de temas que cantam o amor feliz. As canções sucedem-se em trio, quarteto e orquestra, sempre com espaço para o improviso, com destaque especial para a guitarra de Russel Malone. “No Moon at All” e “L-O-V-E” são os temas em que o jazz mais se expõe, especialmente na segunda, em que Krall mostra que é tão boa no piano como na voz. Um 13.º disco que revela a artista num ponto particularmente alto, em que casa na perfeição o rigor da interpretação com um à-vontade notável na encenação das canções.

Alison Krauss - Windy City ***

Algumas das melhores baladas que ainda hoje se ouvem nasceram nas águas, ou nas margens, da música country, nos idos de 50 e 60 do século passado. “Losing You” ou “You Don’t Know Me” são apenas alguns dos exemplos a que Alison Krauss dá voz, neste seu primeiro disco a solo desde 1999. Também ela oriunda dos territórios country e bluegrass, decidiu celebrar o 30.º aniversário de carreira com um disco em que recupera precisamente as grandes baladas e canções mais mexidas dessas duas décadas prodigiosas (na verdade, há dois temas bem mais tardios, mas ninguém vai notar...). O grande trunfo do disco é mesmo a voz de Alison, e a produção faz-lhe as honras: orquestrações certinhas, sem grande rasgo, a dar todo o espaço à interpretação vocal. Essa construção acaba, porém, por enfraquecer demasiado o conjunto, que acaba por nunca sair de uma certa mediania. Apesar de tudo, pérolas há, como “Gentle on My Mind” que sobrevivem.

Lloyd Cole - In New York, Collected Recordings 1988-1996 ****

“Deveria ter percebido que a minha carreira estava em declínio. Não percebi, porque as coisas ainda corriam bem na Escandinávia, França, Portugal...”. O segundo volume da obra completa de Lloyd Cole – o primeiro saiu em 2015 e reunia a discografia com os Commotions (1983-88) – é admirável a vários níveis, a começar pela sinceridade com que confessa os seus falhanços. Mesmo que esse falhanço seja, afinal, muito relativo, pelo menos do ponto de vista artístico. Citando Dylan, um dos seus ídolos assumidos: “there's no success like failure and failure's no success at all”... 
Esta caixa conta a história da aventura nova-iorquina, logo a seguir ao fim dos Commotions. Fá-lo através dos quatro discos oficiais desse período: “Lloyd Cole” (1990), “Don’t Get Weird on Me” (1991), “Bad Vibes” (1993) e “Love Story” (1995). Mas também com um disco rejeitado pela editora, em 1996, e um outro que reúne versões alternativas e canções nunca editadas desse mesmo período. Precioso para entender essa aventura americana é o pequeno livro que integra a edição e no qual Lloyd Cole e os músicos que o acompanharam nos contam a história desses anos. Um músico desorientado, numa década áspera. Na Inglaterra natal, dominava a Britpop, mas, na sua “circunstância americana”, ele tentava encontrar um lugar entre Dylan, Lou Reed, Van Morrison, Burt Bacharach. Com as editoras a exigirem-lhe êxitos, que não chegavam, músicas de dança e outras concessões, que ele não fazia, para finalmente lhe fecharem a porta. 
Resumidamente, disco a disco: Cole tenta dar continuidade e densificar os Commotions (90), faz um disco meio eléctrico, meio orquestral, numa tentativa de perceber o que queria (91), deita tudo a perder num disco denso e desfocado (93) e renasce das cinzas através de uma via mais acústica e folk (95), que prosseguirá na fase posterior. 
Esta série de colectâneas tem a virtude de (re)colocar Lloyd Cole no lugar que merece, como um dos compositores mais interessantes da sua época. Canções como “No Blue Skies”, “Downtown”, “Undressed”, “Margo’s Waltz” ou “Like Lovers Do” não o deixam mentir.

Bob Dylan - Triplicate *****

Os títulos destas 30 canções estão impressos em cada um dos três discos que compõem a colecção. E ainda mais duas vezes: num sucinto desdobrável e no interior da capa. Em nenhum desses locais Dylan arranjou espaço para identificar os seus autores. E, no entanto, estamos perante canções de monstros sagrados do cancioneiro americano: Irving Berlin, Jerome Kern, Hoagy Carmichael, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein... É certo que algumas serão tão conhecidas que nem precisam de apresentação – boa desculpa... – mas outras não passam de obscuras baladas. Conforme escreve Tom Piazza, no tal desdobrável – e já tínhamos percebido pelos dois discos anteriores de Dylan no mesmo registo (“Shadows in the Night”, de 2015, e “Fallen Angels”, de 2016) -, estamos perante um exercício de apropriação radical das canções. Dylan não pretende cantá-las melhor que ninguém, nem sequer descobrir e mostrar um ângulo novo sobre cada uma delas, mas apenas interpretá-las como se fosse possível nesse gesto revelar-lhes uma qualquer essência. Essa apropriação, pelos vistos, inclui a anulação de qualquer traço de autoria, algo que o próprio músico abomina, logo ele que tão cioso é dos seus direitos de autor... Enfim, mais uma das idiossincrasias do velho Bob. 
E, já agora, o crime compensa, ou seja, essa apropriação resulta? Estranhamente, sim. Estranhamente porque, à terceira ronda, a ideia de Dylan a imitar Sinatra (sim, é novamente o repertório da Voz que está na baila...) permanece uma contradição nos seus próprios termos. E compensa porque ouvir, por exemplo, “September of my Years” ou “These Foolish Things” nesta voz, com um quinteto em que apenas sobressai a guitarra, é uma experiência quase mística. Perto, talvez, do propósito disto tudo.

José James - Love in a Time of Madness ****

Se fosse necessário apresentar um exemplo contemporâneo da enorme influência de Prince na música que se pratica nos territórios de intersecção de brancos e pretos, esse disco seria esse. Especialmente nos temas colocados a meio do disco: “Last Night”, “Live Your Fantasy” e “Ladies Man”. E, se os dois primeiros são quase Prince original, já o terceiro parece herdeiro indirecto, por via de Pharrell Williams. Esta é claramente a aposta mais conseguida desta quarta gravação de José James para a Blue Note. Depois da abordagem conservadora, embora nada menor, à obra de Billie Holiday (2015) agora é a vez de experimentar uma enorme expansividade sónica pelas zonas de dança, R&B e funk. A base é frequentemente um simples e esparso pulsar electrónico (“Always There”), sobre o qual a voz de veludo de James se faz evidenciar (“To Be With You”). E depois há umas coisas mais tipo John Legend (“Remember Our Love”), que, sendo menos brilhantes, não deslustram.

The Magnetic Fields - 50 Song Memoir *****

Cinco motivos pelos quais vale muito a pena ouvir os cinco discos com que Stephin Merritt celebra o seu 50.º aniversário através de 50 canções em que toca 50 instrumentos. 
O autor. Stephin Merritt é a modos que um génio. Herdeiro dos grandes compositores americanos do século XX, pela via de Burt Bacharach, num universo a que não são alheios Phil Spector e Brian Wilson. Em 1999, publicou um triplo CD, com o título muito apropriado e literal de “69 Love Songs”, um objecto absolutamente intemporal, tal é a sua perfeição. Stephin não é a alma dos Magnetic Fields. Stephin é os Magnetic Fields. 
O conceito. Este é um disco de não-ficção, de certa maneira, no sentido em que todas as autobiografias são construções meticulosas. As palavras são do próprio autor, numa longa e interessante entrevista que integra esta edição. A cada ano da sua vida, Merritt faz corresponder uma canção. 50 no total. 
As canções. As canções não se limitam à biografia. Têm a mãe, é certo, e o gato Dionysius e os muitos amores falhados. Mas são também sobre o sujeito no seu contexto. A epidemia inicial de SIDA que ceifa as amizades em redor, os jogos de computador, Londres e Nova Iorque. As canções de Merritt são quase sempre pequenos contos, narrados com um simplicidade e naturalidade desarmantes. 
A interpretação. A imaginação à solta, como raramente se encontra na música. As canções de Merritt lembram muitas vezes caixinhas de música, pela simplicidade com que se apresentam. Mas são caixinhas sempre diferentes e a simplicidade é apenas aparente. Pouca gente casa de forma tão perfeita os instrumentos acústicos com a eletrónica, talvez pela sobriedade com que esta última é abordada. 
O amor. Não terá sido por acaso que fez um disco com 69 canções sobre o tema. Agora, destas 50, poderia juntar-lhes mais umas trinta, talvez. Da acidez da desilusão à esperança de um Cupido que acaba sempre por aparecer, nem que seja na exacta última canção. 

Regina Amália ****

Uma edição de três discos que recupera a história de amor de Itália pela nossa maior fadista. Uma história com muito pouco fado


















Amália foi, não apenas a nossa melhor fadista, mas também a artista portuguesa que atingiu maior fama mundial. Esta edição é disso a prova, através da exposição exaustiva da sua passagem por Itália, onde durante três décadas foi tratada por Regina (Rainha) Amália.
Em 1966, Amália actuou no Lincoln Center e no Hollywood Bowl, acompanhada de orquestra, em 1970 lança o disco com Vinícius, em 71 sai “Amália no Japão”, em 72 “Amália em Paris” (o Olympia é de 57...) e, em 76, sai “Amália no Canecão”. Embora sempre tenha actuado com sucesso no estrangeiro, a década que se inicia em meados dos anos 60 foi uma era de ouro na carreira internacional de Amália. No entanto, foi em Itália que alcançou o maior êxito. A fadista percorreu o país de norte a sul, encheu as maiores salas, foi incensada pela imprensa – de tudo isso esta edição dá conta e documenta.
O grande segredo de Amália para essa conquista do mundo não foi, porém, o fado, mas sim o folclore. Nessa época, lançou o seu grande disco de fado, “Com Que Voz”, com os maiores poetas lusófonos musicados por Alain Oulman, mas edita também vários discos de folclore português, alguns deles reunidos nas colectâneas “Amália Canta Portugal”. É fruta da época: a apropriação do folclore pela música clássica, vinda do início do século, estende-se à música de grande consumo, seja na pop-rock anglo-saxónica, seja, por exemplo, por cá, com o outro grande vulto português desse tempo, José Afonso. É, aliás, em 1971 que se estreia na televisão “Povo que canta”, com as recolhas etnográficas de Michel Giacometti.
Não é, por isso, de estranhar que, nesta edição, das cerca de 60 interpretações que recolhe, surjam apenas pouco mais que meia dúzia de fados. É certo que um dos discos é especificamente dedicado ao folclore italiano (e essa é outra peculiaridade da relação de Amália com o país), mas mesmo no disco que reúne a sua atuação no Teatro Sistina (Roma, Novembro de 76) o fado é escasso e o palco é todo para o folclore, seja ele português, italiano ou espanhol, ou para as derivações, como seja o “Porompompero”, um grande êxito castelhano da época que Amália incorpora no seu repertório ao vivo.
Itália, o carinho e entusiasmo com que é recebida, marcam também uma mudança mais funda em Amália. Apoiada pelos avanços tecnológicos (microfones portáteis), movimenta-se pelo palco, desenvolve grandes gestos, que definirão a sua imagem, e, tendo como pano de fundo o coro da assistência, desenvolve aquele improviso entaramelado (trálaralá) que se torna marca de água quando sai do fado e interpreta temas populares.
Esta edição, coordenada por Frederico Santiago, integra-se na cuidada reedição das suas obras iniciada há poucos anos, e disponibiliza pela primeira vez entre nós registos inicialmente destinados ao mercado italiano.
O primeiro disco reproduz o LP “A Uma Terra che Amo” (1973), que reúne dez temas do folclore italiano de vários séculos e regiões. Nos extras, surgem coisas tão dispersas, mas interessantíssimas, como versões de canções do festival de Sanremo (“Canzone Per Te”, celebrizada por Roberto Carlos), versões italianas de “Coimbra” e “Barco Negro”, ou mesmo um fado em italiano “Mio Amor, Mio Amor”, com letra de Ary dos Santos).
Os outros dois discos recuperam gravações ao vivo. A integral de “Amalia in Teatro” (76), com folclore em três línguas (impecável, o italiano falado e cantado de Amália) e alguns fados. Muito interessante, a definição de fado com que introduz “Povo que Lavas no Rio”: fado é o destino (do latim “fatum”), um “destino bruto, cativo, triste”. O terceiro disco junta gravações ao vivo realizadas em vários locais de Itália para um documentário de Augusto Cabrita, que acabou por nunca ser editado e cujas imagens desapareceram. E essa talvez passe a ser a grande falha na história de Amália – agora, que começamos a ter acesso até a algumas gravações perdidas, é pena que toda a força das suas actuações ao vivo não nos seja devolvida através de gravações de vídeo. Existirão?

Depeche Mode - Spirit ****

São tempos duros, estes que vivemos. Tempos sombrios, angulosos, frios. A música dos Depeche Mode sempre andou por territórios de uma certa aspereza, moldados pela omnipresente eletrónica. A espiritualidade dos seus temas funcionava, assim, como saída de emergência. Agora, com “Spirit”, curiosamente, é a materialidade que se impõe. A matéria das notícias, de Trump ao Brexit, da erosão da política à ilusão da economia. A resposta dos Depeche Mode desenvolve-se em três frentes: o puro niilismo sobre a condição humana (“Going Backwards” ou “The Worst Crime”); o pegar em armas contra toda esta situação (“Where’s The Revolution”); e, sim, a tal resposta espiritual de sempre, por exemplo sob a forma prosaica do amor (“So Much Love”), ou da carnalidade de “You Move”. Cinicamente, poderemos sempre concluir que toda esta crise lhes faz muito bem. Este é o melhor registo da banda em muitos anos.

Arcade Fire - The Reflektor Tapes ***

Os extras incluem um DVD inteirinho com a gravação de um concerto em Earls Court, quase duas horas em redor de “Reflektor” e um ou outro salto aos discos anteriores. A realização é banal, mas os concertos dos Arcade Fire não precisam de grandes artifícios para se tornarem em algo memorável. Ainda no capítulo dos extras, há os vídeoclips realizados para “Reflektor”, especialmente o de “Afterlife”, dirigido por Spike Jonze e interpretado por Greta Gerwig (“Frances Ha”). O menos interessante do conjunto acaba por ser a sua peça central, ou seja, o filme de Kahlil Joseph, um objecto de difícil definição, talvez porque demasiado pretensioso, tentando alcandorar-se a ensaio, quando não passa de uma colagem de segmentos, por vezes um tanto entediante. O objetivo é mostrar-nos o processo criativo da banda através das personalidades dos seus dois actores principais (Win Butler e Regine Chassagne). Ficamos a saber muito pouco. 

Them Flying Monkeys - Golden Cap ***

A tentação mais evidente será a comparação com os Tame Impala, influência evidente desta sonoridade psicadélica arrancada aos anos 70. Mas a banda de Sintra vai um pouco mais atrás e deixa-se contaminar pelos delírios de Barrett nos Pink Floyd iniciais, por exemplo em “Yellow Hearts”, ou, de forma ainda mais imersiva em “Halos”. Esse fascínio um tanto exagerado e datado pelos sintetizadores, pelas vozes e coros distorcidos, pelas quebras sucessivas de ritmo, crescendos e mudanças súbitas de tom compromete decisivamente amplitude desta música (“Leave to Relief” é quase um catálogo de efeitos sonoros). Os Tame Impala, leia-se, o sucesso comercial, fica assim comprometido por essa atmosfera demasiado planante e um tanto obsessiva. Nada disto parece fruto do acaso, até porque, apesar da juventude da banda de Sintra, o som é já bem profissional e bem construído. Agora é deixar rodar a ver o que dá.

Elbow - Little Fictions ***

Começando pelo fim. “Kindling”, a base rítmica de “Kindling”, faz lembrar os Velvet Underground. Mais exactamente “Sweet Jane”. Mas as semelhanças ficam por aí. Essa é a máxima crueza musical que os Elbow concedem a si próprios, sendo que a postura vocal muito “cool” de Guy Garvey ajuda à comparação. A banda britânica mantém-se preferencialmente em territórios mais aveludados, de que é bom exemplo o tema de abertura, “Magnificent (She Says)”, no seu compasso muito certinho, dramatizado por umas cordas de banda sonora. O CD sela o fim de um silêncio de três anos, marcado por pequenas mudanças na banda e na vida dos músicos, o que se reflecte numa toada bem mais luminosa das canções. À qual nem sequer faltam as referências um tanto sarcásticas ao Brexit, em “K2”. O resto são as pequenas histórias (“Little Fictions”), com o amor no centro, e espirais de som em redor (“Firebrand & Angel”, por exemplo).

Lula Pena - Archivo Pittoresco ****

Todas as canções numa só. Como num continuum, em que apenas os limites fisiológicos ou tecnológicos obrigam à quebra, à descontinuidade. Todas as línguas a destilarem sentido, do francês ao crioulo, do castelhano ao grego, do inglês ao puro murmúrio. Todas as músicas enlaçadas numa música universal, em busca talvez da raiz comum. O phado, sim esse fado, as mornas, o samba, a chanson, o indefinível. Em palco, é por vezes difícil perceber onde acaba Lula Pena e começa o violão, onde acaba o dedilhar e entra o tamborilar. Em disco, esse movimento é congelado no momento e temos sempre a sensação de que foi assim naquele momento, porque fosse outro e outro movimento ficaria registado. Música orgânica, gosta de dizer a autora, compositora, intérprete. Como se a música fosse a sua natureza, pouco importando que, em duas décadas, este seja apenas o terceiro registo (“Phados”, em 1998 e “Troubadour”, em 2010). Este que agora ouvimos resulta de uma encomenda feita em 2014. O resto do tempo passa-o Lula Pena em cena e impressiona visitar a sua página no Facebook e perceber como o mundo, especialmente a Europa, a ouve, e como os media de referência desses países lhe registam tão atentamente o percurso. Numa dessas entrevistas, a definição do que pretende fazer em palco: “acupunctura, tocar o ponto emocional de cada espectador. É esse o poder da música”. E é, afinal, isso que acontece, mesmo neste formato frio do digital. Mesmo o ouvido mais empedernido pelos tops da moda haverá de reagir às agulhas de melodia e melancolia que por aqui tão generosamente são oferecidas. Talvez – é só uma ideia – começando pelo fim, pela mais fácil “Come Wander with Me”, da banda sonora de Twilight Zone.

Momo - Voá ****

Quando, ao fim de minuto e meio de doçura e delicadeza de Momo, a voz de Camané irrompe poderosa, “Alfama” dispara em todas as direções. É samba? É fado? É valsa? Flamenco? Pouco importa, na verdade. Que a graça desta música é essa mesmo. Isto é, na verdade, música brasileira até ao osso (“Pensando Nele”), tem o doce balancear dos trópicos, mas não se deixa aprisionar no samba, na bossa ou em qualquer outro formato (“Mimo”, escrita com Rita Redshoes”). Momo (Marcelo Frota) é ele próprio um cidadão do mundo (“Song of Hope”), mineiro de nascimento, em Alfama há um ano, com passagem por vários pontos do globo. A sonoridade, mais luminosa e complexa que a dos seus quatro discos anteriores, deve-a à produção de outro brasileiro de Lisboa, Marcelo Camelo. Uma música ondulante, quase dançante, assente numa poética introspectiva (“Roseiras”) e melodias planantes (“Esse mar”). Bem bonito.

Rita Redshoes, Teatro Tivoli, 23 Fev


Um dos aspectos mais interessantes do último disco de Rita Redshoes é o permanente paradoxo. Nunca, como em “Her”, as canções foram tão luminosas, e, no entanto... no entanto, há uma suave melancolia que se infiltra em cada ruga desses sorrisos. 
Outro paradoxo? A simplicidade das melodias que nos apetece cantarolar de imediato esconde, na realidade, um trabalho de composição de uma complexidade de quem já domina os cantos à coisa. E depois há o paradoxo, digamos assim, do canto em português cantado por uma portuguesa de quem só conhecíamos ainda a versão anglo-saxónica. 
Victor Van Vugt, produtor, e Knox Chandler, que tratou dos arranjos de cordas do disco lançado em Novembro de 2016, reflectem sobre esses aspectos (aparentemente) contraditórios, nos webisodes criados para o lançamento de “Her” e que podem ser encontrados na Net. 
Os músicos, a sua qualidade e experiência, foram uma das apostas ganhas desta quarta gravação de Rita, num trabalho de densidade estética e técnica raramente vistas entre nós. 
É, pois, com o peso de toda essa responsabilidade que a compositora e cantora se apresenta agora em concerto nas nossas duas grandes cidades. Trabalho, diga-se, relativamente facilitado pela primeira parte da digressão, realizada, ainda o ano passado, em pequenas cidades portuguesas. 
O palco vai ser dominado por um quarteto de cordas, a que se juntam a secção rítmica (baixo/bateria) e o piano da própria. O mais certo é que consigam reencarnar o som e espírito do disco. 
Uma dúvida: irá Rita mostrar o “Heroes”, de Bowie, que gravou para disco de David Fonseca?

David Fonseca - Bowie 70 ***

A gravação de versões serve, normalmente, para que o homenageador mostre ao mundo como o seu estilo interpretativo se mescla com o ADN dos originais. Se um músico de jazz faz uma versão dos Beatles esperamos uma versão jazzística dos de Liverpool. Simples: despe-se a canção das roupas originais e cola-se-lhe à pele uma outra indumentária. Com Bowie há, porém, uma dificuldade: ele deixou marca como autor e intérprete, mas as suas canções foram também fazendo história pela pose, traduzida na produção. É, por exemplo, difícil imaginar “Absolute Beginners” sem o “pam-pam-paroum” do coro masculino, ou até sem a cascata de piano... Não estando na pauta, aquilo faz parte da canção. Que fazer, então? Talvez numa versão que mantenha algumas daquelas peças no sítio e recomponha a cena. Ou talvez, mais radicalmente, inventando algo completamente novo sobre a canção original. O disco de David Fonseca não faz uma coisa, nem outra. O músico, que toca todos os instrumentos à excepção das cordas, como que equalizou as canções, numa massa sonora muito similar ao longo do disco, sem lugar à surpresa. Os cantores, um por canção, trazem o seu estilo interpretativo, mas nenhuma das canções, nunca pretendendo reproduzir o original, consegue descolar para algo de inovador, à la Bowie. Ou seja, versões competentes, mas (demasiado) bem-comportadas. Por exemplo, “Absolute Beginners”. A cortina instrumental é densa e arrastada, o que as cordas só acentuam, e Tiago Bettencourt tem a voz que tem e nunca arranha lá em cima, como Bowie tantas vezes fazia. Felizmente, o fado de Ana Moura toma conta da cena em “The Man Who Sold the World”, Reininho é vintage em “Where Are We Now” e – sim – o próprio David Fonseca é um belo Bowie em “Lazarus”.

Dead Man Winter - Furnace ****

Poderia chamar-se Clube dos Músicos Solitários. Involuntariamente solitários, desesperadamente solitários, temporariamente solitários. Músicos que sublimam a dor da separação em discos inteiros de ir às lágrimas e, às vezes, de redenção. Dave Simonett, o mais recente membro do clube, explica a razão: ou deitava tudo cá para fora agora, ou andaria o resto da vida a cantar isto (já quase todos sabemos que não é bem assim...). Desiludam-se, porém, se vêm aqui à procura de lamúria em baladas arrastadas. As letras são amargas (“I’m full of shit”), mas a música é da boa e, de certa maneira, animadora (“Red Wing Blue Wing”, da qual consta o verso citado). Há mais de uma década que Simonett liderava a banda de bluegrass Trampled by Turtles, mas esta é a segunda aventura sob a asa dos Dead Man Winter. Byrds, Band e Dylan são as influências mais evidentes. Musicalmente, a separação fez-lhe bem. O resto sara mais depressa do que parece.

Simple Minds - Acoustic **

O formato acústico (unplugged, em inglês da MTV) é especialmente interessante quando dá a ouvir versões stripped-down (despidas, em português) de canções que conhecemos na sua forma, não apenas eléctrica, mas também orquestrada e muito perfeitinha. Ou seja, o elogio da simplicidade. Exemplos clássicos? REM e Nirvana. Já os Simple Minds acabam de inventar um novo conceito: as versões acústicas dos seus grandes temas surgem aqui envoltos em camadas e camadas de instrumentos, com destaque para as percussões e as guitarras. Uma espécie de mil folhas musical, açucarado com reverberações abundantes e alguma electrónica mal escondida, a criar um efeito de estádio de trazer por casa, entendendo-se por casa aqueles leitores de CD rodeados de colunas 5 por 1 e o diabo a sete. E, é claro, quem disser que isto lhe soa terrivelmente a qualquer coisa, essa coisa chama-se Mumford & Sons, recordistas de vendas nos últimos anos. Mentes simples? Ah ah...